The Aesthetics of Disinformation
Tese de doutorado de Daniel Chinellato sobre atos comunicativos pictóricos e multimodais.
Defendo que uma pessoa, um grupo ou uma instituição pode mentir ou induzir ao erro usando uma imagem. A unidade de análise relevante é o ato comunicativo situado, não a imagem considerada isoladamente. A tese desenvolve a teoria necessária para explicar como um ato realizado com uma imagem adquire seu conteúdo, sua força e seu falante, e como o falante assume compromisso por meio dele.
O caso de teste é real. Em 2006, a Reuters retirou uma fotografia de Beirute cujo fotógrafo havia clonado as colunas de fumaça para exagerar a destruição. Ele não escreveu nenhuma frase falsa, mas a Reuters tratou sua submissão como algo a ser retratado e pelo qual era preciso responder. Teorias proeminentes da mentira conseguem descrever o engano e a violação profissional, mas não conseguem classificar sua submissão pictórica como mentira. Argumento que, na leitura da manipulação deliberada, ele mentiu se pretendia comunicar a afirmação relevante sobre o registro, apresentou-a como verdadeira, assumiu compromisso assertórico com ela e acreditava que fosse falsa. Demonstrar isso exige rever a maneira como pensamos a asserção e o conteúdo para além da linguagem.
Mentir para além do dizer
Definições proeminentes divergem quanto à falsidade, à garantia e ao terreno comum, mas muitas vinculam a mentira ao dizer ou à realização de uma declaração. Elas precisam, portanto, negar que se possa mentir apenas com uma imagem. Argumento que essa restrição já falha dentro da linguagem, antes mesmo de as imagens entrarem em cena. Mentiras metafóricas mostram que o compromisso pode ultrapassar aquilo que é dito, enquanto casos pressuposicionais oferecem uma via adicional, embora controversa, para além do dizer. Adoto e amplio, assim, uma teoria baseada no compromisso para distinguir mentira e indução ao erro. Um falante mente com respeito a p quando pretende comunicar p, apresenta p como verdadeiro, assume compromisso assertórico com p e acredita que p seja falso. Ele induz intencionalmente ao erro quando comunica um conteúdo que acredita ser falso, evitando esse compromisso. Nada nessa distinção é específico a um modo. Resta, então, mostrar que atos pictóricos podem satisfazer suas condições.
O problema da indeterminação
A objeção séria não é que imagens careçam de sintaxe, mas que o conteúdo pictórico seja denso demais para fixar uma única proposição asserível. Uma fotografia disponibiliza muitas proposições ao mesmo tempo. Respondo com uma divisão de trabalho. O conteúdo pictórico, compreendido por meio do conteúdo representado e daquilo que é mostrado, restringe quais proposições uma imagem pode sustentar. É preciso distinguir esse conteúdo do alvo em relação ao qual uma imagem é avaliada, assim como distinguir a precisão pictórica da verdade de uma asserção realizada com uma imagem. O que chamo de questão em jogo é a pergunta pública, a tarefa prática ou o problema apresentado ao qual uma contribuição responde. A prática pública, aplicada às características publicamente acessíveis do uso, determina quais proposições sustentadas o falante põe em jogo em uma ocasião. Ao contrário de uma questão conversacional em discussão, a questão em jogo também pode operar em exposições, vendas, jornalismo e tribunais. Quando as características públicas de um uso sustentam igualmente respostas incompatíveis, aquilo que o falante põe em jogo permanece indeterminado. Isso é uma previsão, não um defeito. Alguns usos pictóricos não determinam qual proposição, se houver alguma, o falante põe em jogo, e a teoria reconhece esse resultado.
Força sem uniformidade
Fixar a proposição deixa em aberto o que o falante faz com ela. É preciso separar três relações que costumam ser tratadas como uma só. A regência pela verdade diz respeito a se a verdade de p afeta de algum modo seu estatuto público no ato; a responsabilização diz respeito à possibilidade de crítica por um p falso; e a responsabilidade discursiva diz respeito ao dever de defender ou retirar p quando contestado. A asserção exige apresentação como verdadeira mais compromisso assertórico; usos mais fracos regidos pela verdade não exigem isso. Chamo a possibilidade resultante de compromisso seletivo. Em um único ato unificado, o falante pode asserir uma proposição e apenas sugerir outra, sem que o ato se divida em um ato por proposição. A noção explica como o compromisso pode variar entre as proposições postas em jogo em um mesmo ato. Uma vez fixados a proposição, o falante, a regência pela verdade, a apresentação como verdadeira e o compromisso, a intenção e a crença determinam se ocorreu mentira ou indução intencional ao erro. Indiferença e cuidado epistêmico respondem a questões adicionais. O bullshit pode coincidir com qualquer um dos dois e também com a asserção negligente.
Contribuição conjunta em atos multimodais
Legendas, filmagens, narração e temporalidade levantam uma questão composicional. Como componentes coordenados pertencem a um único ato? Argumento que há contribuição conjunta quando componentes de um mesmo ato comunicativo determinam em conjunto uma proposição que nenhum deles determina isoladamente. A noção é deliberadamente estreita. Efeitos sobre a recepção e qualificações que incidem sobre o compromisso não devem ser redescritos como contribuições à proposição. Uma vez distinguido o ato completo de seus componentes, uma imagem precisa pode ser usada em uma asserção falsa e a mesma imagem pode integrar atos diferentes. O ato completo porta a força, enquanto seu falante assume o compromisso.
Testemunho fotográfico e de-forcing
A fotografia oferece uma aplicação exigente da teoria. Uma fotografia pode funcionar apenas como evidência, como quando permanece em um arquivo, ou pode ser usada por um falante que oferece sua palavra em favor da afirmação de que a imagem registra uma determinada pessoa, cena ou ocorrência. Apenas o segundo uso é testemunho fotográfico. Isso explica por que uma fotografia genuína pode circular sem testemunho e por que uma imagem sintética pode ser usada para prestar falso testemunho fotográfico. Chamo de de-forcing uma falha-limite. Os participantes têm razões para procurar testemunho fotográfico, mas a prática pública não fixa uma afirmação de registro, nenhum falante aparente realiza ou autoriza o ato completo como um ato pelo qual responde, e a apresentação não oferece de modo determinado a palavra de ninguém. Aparência visual, verdade e confiabilidade não constituem, por si sós, testemunho fotográfico.
Por que estética
Enquadramento, composição e detalhes visíveis restringem o que uma imagem pode sustentar e direcionam a atenção; temporalidade e sequência afetam a maneira como componentes coordenados funcionam em conjunto e a facilidade com que um público aceita aquilo que lhe é mostrado. Nada disso porta compromisso por si só. Casos de desinformação podem explorar a forma pictórica e a circulação, deixando em aberto o que foi afirmado, por quem e sob a palavra de quem. Uma análise centrada no ato mantém separadas persuasão e compromisso, estabelece, quando a evidência pública é suficiente, se um uso pictórico constitui uma asserção, uma mentira, um ato intencionalmente enganoso ou um testemunho, e preserva espaço para efeitos estéticos e afetivos que importam mesmo quando nenhuma proposição determinada é posta em jogo.